Inovações em saúde – dentro e fora do escritório
Um médico especialista em longevidade e wellness foi cobrir a fswk2025, evento de tendências e criatividade para o bem-estar. Aqui ele nos conta as novidades.
Foram dias muito especiais. Eu tive a chance de viver uma maratona intensa – e deliciosa – na fswk2025, o maior evento de tecnologia, inovação e criatividade em saúde da América Latina. Durante os dias 5, 6 e 7 de novembro, no Rio de Janeiro, mergulhei em debates, participei como apresentador de podcast, atuei como embaixador, subi ao palco como palestrante… Enfim, vivi três dias que pareciam 20 de tanta troca, gente incrível e ideias que não paravam de surgir.
E, como esta é uma revista de RH, vale destacar: muitas das conversas mais potentes tiveram tudo a ver com gestão de pessoas, saúde corporativa, longevidade, impacto social e até governança – incluindo as implicações da NR-1 moderna.
Quem esteve por lá saiu com uma certeza: saúde do colaborador não é só bem-estar; é estratégia de negócio. E o evento apresentou essa ideia com dados, evidências científicas e caminhos práticos que mostram como implementar tudo isso no dia a dia. Esse é justamente o passeio que vamos fazer ao longo desta reportagem.
Saúde como estratégia – não como “benefício fofo”
Os números globais têm sido repetidos como um mantra, mas continuam chocantes: depressão e ansiedade custam cerca de US$ 1 trilhão por ano em perda de produtividade no mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde.
Falar disso no evento não foi só citar estatística: foi discutir o impacto real na rotina de cada empresa – no absenteísmo, no presenteísmo, na perda de inovação e até na qualidade do clima organizacional.
Uma coisa ficou clara em vários painéis: programas individuais (como terapia, mindfulness e counselling) são importantes, mas não bastam. A literatura científica mais recente vem mostrando que intervenções organizacionais – como ajustar jornada, redesenhar tarefas, ampliar autonomia e treinar lideranças – são as que realmente geram impacto duradouro na redução de burnout.
Do ponto de vista prático, o RH recebeu uma lista do tipo “comece por aqui”. Passa por mapear riscos psicossociais com ferramentas validadas; treinar lideranças para identificar sinais precoces de sofrimento emocional; criar rotas rápidas de acesso a cuidado psicológico (telepsicologia, EAPs); monitorar indicadores como absenteísmo, turnover e afastamentos por transtornos mentais e… correlacionar tudo isso com as ações implementadas.
Como resumiu Ana Carolina Peuker, diretora da Associação Brasileira de Qualidade de Vida: “Falar sobre saúde mental não pode ser apenas campanha bonita. Imagine uma empresa que decide reduzir acidentes físicos. Ela não resolve o problema apenas com palestras: cria protocolos, monitora indicadores e ajusta práticas, de acordo com o que é preconizado pela ciência. O mesmo vale para os riscos psicossociais. É preciso entender o que causa sobrecarga, insegurança ou conflito, estabelecer prioridades e acompanhar se as medidas adotadas estão, de fato, funcionando”.
Preparando o mercado para carreiras mais longas
Outro grande tema foi a longevidade. Vivemos mais, trabalhamos mais anos… e isso muda tudo. No evento, pesquisadores reforçaram que doenças crônicas como diabetes, hipertensão e problemas cardiovasculares precisarão estar cada vez mais integradas aos planos de carreira e de desenvolvimento.
Estudos recentes mostram que programas de redução de risco cardiovascular trazem benefícios clínicos e financeiros em médio prazo quando bem-direcionados. Só que aí vem o desafio número um: individualidade.
Cada funcionário chega com sua história, seu corpo, seus hábitos, seus antecedentes familiares. E cuidar de todos como se fossem um bloco uniforme simplesmente não funciona.
A boa notícia é que a tecnologia está abrindo caminhos mais inteligentes. Aplicativos, algoritmos e IA já conseguem estratificar riscos, identificar subgrupos e dar orientações personalizadas.
Entre as práticas destacadas estão o rastreio estratificado por risco (como score cardiovascular); o incentivo à atividade física integrada à rotina, com pausas e deslocamento ativo; políticas nutricionais realistas: opções saudáveis, fornecedores locais, educação alimentar contínua. Pequenos ajustes cotidianos que, somados, mudam o jogo.
Biohacking e os novos superpoderes do RH
Se houve um assunto que uniu quase todos os painéis, foi este: a explosão da saúde digital. Telemedicina, plataformas de bem-estar, wearables, inteligência artificial, predição de risco, monitoramento contínuo… parece futurista, mas já é presente.
As revisões científicas mostram efeitos moderados, porém consistentes, na mudança de comportamento e na adesão dos trabalhadores quando programas digitais vêm acompanhados de suporte humano.
E aí entra o fenômeno do momento: o biohacking.
Relógios, anéis inteligentes e sensores que medem passos, sono, frequência cardíaca, respiração… é dado que não acaba mais. Mas o objetivo não é transformar todo mundo em atleta de alta performance. É permitir decisões melhores e mais rápidas sobre saúde populacional dentro das empresas.
O RH, claro, precisa ficar atento à governança desses dados clara e ao consentimento informado dos colaboradores.
No meio dessa conversa, tivemos uma notícia enorme: o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, assinou em novembro o memorando que coloca o Brasil na HealthAI, a agência global que atua pelo uso responsável da IA em saúde. Somos o primeiro país da América Latina a integrar essa iniciativa. A entrada nos coloca ao lado de Reino Unido, Índia e Cingapura na construção de padrões globais para o uso ético e seguro da inteligência artificial nesse contexto.
“É um compromisso que vai trazer enormes retornos para melhorar o uso de inteligência artificial no Brasil, mas também uma oportunidade para melhorar os indicadores de saúde da população, e fazê-lo de forma responsável, garantindo a segurança de todos”, afirmou o português Ricardo Baptista Leite, CEO da HealthAI.
Pé na grama e ar puro para a produtividade
Um dos debates mais curiosos, e necessários, tratou da influência do ambiente externo na saúde do trabalhador. Poluição, ondas de calor, ruído urbano e qualidade do ar estão cada vez mais conectados a produtividade e doenças crônicas.
Como pneumologista, sei o peso disso na pele: nas grandes cidades, a poluição já figura entre os principais fatores de risco globais. E um estudo da USP mostrou que uma hora parado no trânsito de São Paulo equivale a fumar dois cigarros. Dá para imaginar o estrago.
Por isso, empresas que conectam sustentabilidade com o RH estão um passo à frente. Entre as estratégias citadas, destacam-se o controle da qualidade do ar interno, a flexibilização de horários em dias de alta poluição, o home office em ondas de calor extremo e o aumento de áreas verdes e infraestrutura natural onde as pessoas passam a maior parte de seus dias. Ou seja, no trabalho.
Até colocar o pé na grama entrou na conversa. A prática do grounding, de caminhar descalço na terra, aparece como redutora de estresse e inflamação.
Antecipando a próxima pandemia
Se a crise do coronavírus deixou um legado inquestionável, é este: não existe “quando acontecer”, existe “quando acontecer de novo”. E essa foi uma das mensagens mais repetidas na fswk2025. Com mobilidade global crescente, mudanças climáticas e avanço de doenças respiratórias e vetoriais, novos surtos são praticamente inevitáveis. Por isso, a preparação das empresas precisa ser contínua e baseada em dados, não apenas em planos no papel.
No evento, especialistas mostraram que estratégias de vigilância ativa conseguem acelerar em até 70% a resposta a surtos. Tecnologias como plataformas de triagem inteligente, dashboards epidemiológicos e até wearables capazes de detectar alterações fisiológicas antes dos sintomas foram apontadas como aliados importantes. Tudo isso integrado a testagem periódica, campanhas de vacinação e protocolos de afastamento/retorno ajustados ao risco.
A NR-1 reforça essa abordagem ao exigir programas permanentes de gestão de risco, revisões regulares do PGR e comunicação interna clara. Treinar lideranças para decisões ágeis e manter ações sazonais – como campanhas de vacinação, orientações para inverno e ondas de calor – reduz o impacto operacional quando novos surtos surgem.
O recado final que ecoou na fswk2025 foi simples: preparação não é medo, é maturidade organizacional. E as empresas que mantiverem esse ciclo ativo estarão muito mais prontas quando o próximo desafio sanitário aparecer.
Medir, avaliar, ajustar: sem KPIs, nada se sustenta
Outro ponto forte do evento foi governança. Um programa de saúde que não mede nada aposta no escuro. As empresas mais maduras combinam indicadores de saúde (fatores de risco, doenças crônicas controladas); economia (custo por colaborador, sinistralidade); engajamento (participação, satisfação); impacto operacional (dias perdidos, turnover, produtividade).
A tecnologia entra para transformar tudo isso em análises mais precisas – quase como se cada funcionário tivesse um “exame laboratorial corporativo”, permitindo decisões personalizadas.
E isso exige ética no uso de dados. A fswk2025 lembrou que a digitalização da saúde corporativa exige maturidade jurídica. Consentimento, anonimização, controle de acesso, LGPD… todos os caminhos passam por políticas claras e construídas em conjunto com áreas de compliance e jurídico.
Não adianta ter a ferramenta mais moderna do mundo se o colaborador não confia nela.
Nos três dias da fswk2025, vi algo que não aparece em slides nem em relatórios: vi propósito compartilhado. Vi líderes, profissionais de RH, executivos, médicos, gestores públicos e inovadores trocando ideias com brilho nos olhos, querendo construir algo real para o futuro da saúde no Brasil.
A mensagem final que eu levo – e que gostaria de deixar aqui – é simples, mas poderosa: o futuro do trabalho será tão saudável quanto a coragem das empresas em assumir a saúde do colaborador como estratégia. Não como moda. Não como benefício. Não como discurso. Mas como parte da cultura, da gestão, da tecnologia, da liderança e da forma como pensamos nosso papel no mundo.
Arthur Feltrin é pneumologista, especialista em medicina integrativa, medicina do Estilo de Vida e Nutrologia. Também é colunista da revista Você S/A.
* * * * *
Esta reportagem faz parte da edição 101 da Você RH, que chega às bancas dia 5 de dezembro.







